Enquanto empresas investem milhões em tecnologias, o verdadeiro diferencial competitivo continua sendo a capacidade das empresas de se conectarem, liderarem e colaborarem.
A euforia causada pelo novo gera dois sentimentos: o de êxtase, causado pela sensação de novidade e de diferencial, e o de insegurança, causado pelos impactos que ainda não foram sentidos.
Avanço tecnológico ou autoritarismo digital
Por um lado, o êxtase vem com as novas ferramentas, com a dinâmica e com a velocidade que a Inteligência Artificial (I.A.) nos oferece. Por outro lado, a insegurança sentida, em certa medida, por conta do imaginário coletivo, causado por questões autorais, políticas e ficcional. Explico.
Autoriais: tudo o que um profissional insere de informação e de dados passa a ocupar um lugar lá no servidor da empresa que fornece as ferramentas de I.A., o que nos leva a pensar sobre quem realmente é dono de todo esse conteúdo, entre outras questões de propriedade. Em 2016, num ensaio publicado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), com autoria da política dinamarquesa Ida Auken, há uma frase polêmica que diz: “Você não terá nada e será feliz.”;
Políticas: no Brasil, por exemplo, tal frase causou um impacto positivo nos globalistas, mas outro impacto foi percebido num outro público, mais conservador. Daí surge a “tese” de que a I.A. tirará o emprego de milhares, ou de milhões, de pessoas no mundo. Não me estenderei muito neste tópico, pois não quero transformar este artigo num palco para discussões sobre política. Em resumo, o texto de Auken tratava sobre uma economia compartilhada e sustentável, onde produtos seriam alugados, e não comprados. Portanto, sem propriedade privada para a maioria das pessoas;
Ficcional: a literatura e o cinema são terrenos férteis para nutrir de ideias conspiratórias e/ou reveladoras sobre o futuro de uma sociedade fadada ao fracasso tecnológico, num mundo pós apocalíptico e tecnológico: a I.A. escraviza a humanidade ou a elimina. Isso quando não há um tecnocrata autoritário nos bastidores. Penso que esse conteúdo todo interfere na forma como as pessoas leem a realidade, podendo projetar uma realidade que pode simplesmente acontecer ou, pior, pode ser construída com tais influências. Afinal, a mente humana tende ao negativismo, como nos mostra a Neurociência, num de seus estudos.
Pertencer ou não Pertencer, eis a questão
Fazendo uma intertextualidade com o famoso verso de William Shakespeare, penso que o problema não está na tecnologia, porém está em sentir que não pertence. Aqui, dividimos tal pertencer em duas visões, já que o termo “pertencer” é polissêmico, isto é, apresenta, neste contexto, dois significados específicos, e, que de certa forma, se confunde num deles.
No primeiro cenário, “pertencer” parece-me uma angústia compartilhada por cada ser humano, afinal o ser humano é naturalmente coletivo, ao mesmo tempo que se posiciona como alguém individualista. Isso pode acontecer porque algumas pessoas ainda operam num estado mais egocêntrico de consciência, digamos.
No segundo cenário, “pertencer” está diretamente ligado à noção política do direito de propriedade, ou seja, se relaciona ao que foi comentado sobre a fala de Auken, cinco parágrafos acima.
Dito isso, o que discutimos engloba as duas situações, mas o tema aponta mais para o sentimento de pertença, no sentido shakespeariano mesmo. Algumas pessoas querem sentir parte dessa revolução tecnológica enquanto outras pessoas resistem às mudanças, optando por resistir.
Isso nos leva ao ponto principal deste artigo: para uns, a I.A. é necessária e benéfica; para outros, a I.A. simplesmente é ameaça ao modo de vida dos trabalhadores e dos empresários.
Fato é que uma ruptura sem tamanho chega silenciosamente desde os anos de 1940, mas só agora é que se popularizou. E finalizo este tópico dizendo “aceitar a I.A ou não aceitar a I.A., eis a questão”.
O valor das Competências humanas frente à transformação digital
Há muitos estudos sobre o medo, e a Neurociência nos mostra que o negativismo é parte importante de nossa capacidade de sobrevivência. O que seria de nós, hoje, se nossos ancestrais não fossem negativos em relação aos predadores de sua época? Talvez, você não estaria lendo este artigo agora, pois os nossos tataravôs fossem otimistas demais e “Nhac!”, devorados por alguma besta na antiguidade.
Assim como “pertencer”, o termo “negativismo” pode significar algo mais positivo ou algo mais negativo mesmo. Dependo do contexto em que o termo for usado.
E isso é fruto de muitas habilidades desenvolvidas ao longo de séculos, o que se tornou em competência humana de alto valor.
Um exemplo prático disso são os pessimistas, os militares, os cientistas, todos, em certa medida, operam suas mentes no negativismo. Para os pessimistas, ser positivo é mortal, pois sempre há um lado ruim em cada história contada. Para os militares, o inimigo não vai acordar e te convidar para tomar um chá. Para os cientistas, uma teoria só pode ser provada com muita refutação de ideias ingênuas e de baixo valor para a tese a ser provada.
Em alguns destes casos, a Inteligência Artificial será fundamental, pois acelerará muito cada processo, mas somente o ser humano será capaz de tomar decisões para validar ideias e agir. A Inteligência Artificial continuará “presa” num servidor. O problema é se este servidor está num território inimigo e sob governo de um inimigo. O que fazer neste caso?
Independentemente do cenário, quanto maior a transformação digital, maior passa a ser o valor das Competências humanas.
Empresas inteligentes com equipes mais colaborativas, mais saudáveis e muito mais produtivas
Colaborar deriva de laborar, portanto começo este tópico afirmando que o mais importante aqui é o trabalho que se faz, seja com o uso da Inteligência Artificial, seja sem o seu uso. Deixei claro que pessoas sempre serão o ativo mais valioso nas empresas!
Até aqui, dei muitas informações que pintam cenários possíveis e reais de atuação das pessoas. Caba a cada um julgar o que farão com tais informações. Vamos discutir um pouco sobre produtividade, ok.
Se uma equipe está divida por causa da Inteligência Artificial, o problema pode estar na crença individual ou na crença coletiva dessa equipe. Cabe ao gestor analisar com muita atenção.
Agora, se o gestor não consegue perceber onde está o problema, a saúde de seu negócio pode estar em risco. Considere aqui todas as informações dos tópicos anteriores com muito carinho. Isso será importante para o seu negócio, gestor!
Um plano de ação para cada cenário é fundamental para que se corrija o necessário de modo ágil e assertivo. Digo isso, pois estamos numa época em que o tempo é de fato relativo: para uns, ainda escoa lentamente, como na época dos avós; para outros, o tempo é não linear e acelerado, sob efeito das novas tecnologias digitais.
É fundamental que os profissionais estejam preparados para este momento de rupturas tecnológicas!
Durante o meu Mestrado, li um livro interessante sobre o “medo”, e sempre que posso, cito esse livro em minhas aulas… Seu título é “Ano 1000, Ano 2000: na Pista de Nossos Medos”, do historiador francês Georges Duby. O autor estabelece um paralelo entre a sociedade medieval com a sociedade atual e nos mostra que o medo independe da causa em si, de modo que o medo é inerente ao ser humano em qualquer contexto em que ele esteja inserido. Recomendo fortemente a leitura na íntegra.

Georges Duby
Em cada momento da história, o ser humano se deparou com desafios e com o desconhecido. Eu sei, fui redundante aqui. O desconhecido deixa de ser desafio quando passa a ser conhecido. A história está repleta de exemplos…
Na mitologia, Prometeu roubou o Fogo dos Deuses e o deu aos homens. Eva comeu do Fruto Proibido. Ford nos deu uma carruagem sem cavalos. Freud nos mostrou que possessão demoníaca não passava de histeria em seus pacientes. Eu mostrei aos meus alunos que gramática é a coisa mais fácil de se aprender. E você está lendo um texto a partir de organização de elétrons numa placa de silício orquestrado por uma Inteligência Artificial que levou até você, como um garçom leva um pedaço de pizza num rodízio.
Então, saboreie! Divirta-se! Apaixone-se elo processo! Aprenda sempre!
Prepare-se! E prepare sua equipe para as transformações, pois assim é o Universo desde o seu início: uma sequência de transformações.
Concluindo sem concluir…
Encerro este artigo reiterando o primeiro parágrafo: ao mesmo tempo que empresas investem milhões em tecnologias, elas sabem que o verdadeiro diferencial competitivo continua sendo, e sempre continuará a ser, a capacidade de Conexão, de Liderança e de Colaboração do Ser Humano.

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